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Da sala de aula às florestas: formando advogados para o futuro verde

Por: Natálya Assunção

02/03/202616h36Atualizado

Foto: Arquivo Pessoal

Natálya Assunção - Advogada com mais de 14 anos de experiência, especializada em Direito Empresarial, Cível e, principalmente, Direito Ambiental. Possui pós-graduação em Direito Ambiental e Urbanístico pela PUC Minas e atuação consolidada na consultoria e assessoria jurídica nas áreas empresarial e ambiental. Membro da Comissão Estadual de Direito Ambiental da OAB/ES. Membro Consultora da Comissão Nacional do CFOAB. Juíza do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/ES. Coordenadora e Professora do Curso de Direito da Doctum Serra.

 

Como a formação jurídica pode preparar profissionais capazes de equilibrar desenvolvimento, legalidade e preservação ambiental

 

A formação do advogado ambiental começa muito antes do primeiro processo ou parecer técnico. Ela nasce na sala de aula, quando o estudante percebe que o Direito não se limita a normas abstratas, mas se conecta diretamente com a realidade social, econômica e ecológica do país.

Em um contexto de desafios climáticos, expansão urbana e demandas por crescimento sustentável, preparar profissionais para esse cenário exige mais do que conteúdo teórico: exige visão crítica, interdisciplinaridade e compromisso ético.

O estudo do Direito Ambiental envolve princípios e regras que regulam a relação entre atividade humana e meio ambiente. Contudo, compreender essa disciplina não significa apenas memorizar dispositivos legais.

O futuro advogado precisa entender, por exemplo, o que é um procedimento de licenciamento ambiental, mecanismo por meio do qual o Poder Público avalia se determinada atividade pode ser instalada ou operar, considerando seus possíveis impactos. Essa compreensão passa pela leitura jurídica, mas também pela análise de relatórios técnicos, mapas, estudos e pareceres multidisciplinares.

Universidades que incentivam debates, estudos de caso e simulações práticas contribuem para formar profissionais mais preparados. O contato com situações reais, ainda que em ambiente acadêmico, desenvolve capacidade argumentativa e senso de responsabilidade.

A Advocacia Ambiental não se constrói de forma isolada. Engenheiros, biólogos, gestores públicos e economistas frequentemente participam dos processos decisórios. O advogado que ignora essa dinâmica corre o risco de oferecer soluções desconectadas da realidade técnica.

Aprender a dialogar com outras áreas é habilidade essencial. Isso não significa dominar todas as ciências, mas compreender conceitos básicos e saber fazer as perguntas corretas. A interpretação de um estudo de impacto ambiental, por exemplo, exige capacidade de correlacionar dados técnicos com implicações jurídicas.

Esse perfil interdisciplinar amplia as oportunidades no mercado e fortalece a atuação estratégica.

O mercado contemporâneo valoriza cada vez mais a atuação preventiva. Empresas buscam reduzir riscos e estruturar políticas internas que assegurem conformidade com normas ambientais. Nesse cenário, surge o espaço para o chamado compliance ambiental, conjunto de práticas adotadas para garantir que atividades empresariais estejam alinhadas à legislação e a padrões de responsabilidade socioambiental.

O jovem advogado que compreende essa lógica preventiva amplia seu campo de atuação. Em vez de atuar apenas quando surge um conflito, passa a integrar a fase de planejamento, contribuindo para decisões mais seguras e sustentáveis.

Também há espaço na esfera pública, na assessoria a órgãos ambientais, no terceiro setor e na pesquisa acadêmica. O diferencial está na capacidade de combinar conhecimento técnico com visão estratégica.

O Direito Ambiental protege interesses que pertencem à coletividade, como a qualidade da água, do ar e do solo. Isso impõe ao advogado responsabilidade ampliada.

A ética profissional exige transparência, lealdade às normas e recusa a práticas que busquem contornar exigências legais. Mais do que defender interesses individuais, o advogado ambiental precisa reconhecer que sua atuação pode repercutir sobre comunidades inteiras e sobre gerações futuras. 

Essa consciência não limita a prática profissional; ao contrário, fortalece sua legitimidade.

Formar advogados para o futuro verde significa preparar profissionais capazes de compreender que desenvolvimento e preservação não são conceitos incompatíveis. A construção de soluções equilibradas demanda técnica, diálogo e responsabilidade.

Da sala de aula às florestas, metáfora que simboliza o percurso entre o estudo e a realidade concreta, o advogado ambiental percorre um caminho de aprendizado contínuo. Cada processo, cada parecer e cada orientação contribuem para moldar decisões que impactam o presente e o futuro.

O futuro da Advocacia Ambiental depende da qualidade da formação atual. Investir em preparo técnico, visão interdisciplinar e ética profissional é preparar uma geração capaz de enfrentar desafios complexos com maturidade e compromisso.

A sala de aula é o ponto de partida. O impacto, porém, ultrapassa seus muros. Formar advogados para o futuro verde é formar profissionais conscientes de que o Direito pode, e deve, ser instrumento de equilíbrio, responsabilidade e transformação social.