Wagner é a solução? PT revisita o próprio passado em busca de futuro na Bahia
Após rejeição digital à chapa de Jerônimo Rodrigues, partido recorre à memória política e reacende debate sobre o papel de Jaques Wagner
Por: Redação
23/02/2026 • 16h02
Quando o presente não ajuda, o passado costuma ganhar novo brilho. Pelo menos é o que sugerem os bastidores políticos na Bahia, após a repercussão majoritariamente negativa à antecipação da chapa liderada por Jerônimo Rodrigues.
De acordo com dados da Amaso, a análise de 7.084 comentários publicados no Instagram aponta predominância expressiva de manifestações contrárias ao anúncio: 77,2% foram classificados como negativos, com destaque para conteúdos de crítica e sarcasmo (41,3%). O nome de ACM Neto apareceu como alternativa em aproximadamente 20% das menções, reforçando o cenário de polarização no ambiente digital. Entre os temas mais recorrentes estão críticas ao PT (38%), referências à corrupção (16,3%) e manifestações de apoio ou oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (13%).
O levantamento considerou nove publicações de alto alcance, combinando classificação manual de sentimentos, organização estatística das interações e análise qualitativa do conteúdo. O pico de engajamento ocorreu entre duas e doze horas após o anúncio, período que concentrou 30,4% dos comentários. Ainda assim, o índice de rejeição permaneceu estável ao longo das faixas temporais analisadas, variando entre 70% e 81% de manifestações negativas.
Diante desse cenário, cresce nos bastidores a especulação sobre o papel de Jaques Wagner: seria ele uma alternativa estratégica ou apenas um recurso nostálgico? O episódio coloca o PT baiano diante de um dilema entre manter a estratégia atual ou recalibrar o discurso, e decidir se o barulho digital é ruído passageiro ou sinal de alerta real.
Linha do tempo: do auge à dúvida
2006: A virada histórica
Wagner derrota o então grupo carlista e inaugura um novo ciclo político na Bahia. O PT assume o governo estadual pela primeira vez, rompendo uma hegemonia de décadas.
2010: Consolidação
Reeleito, Wagner amplia capital político e consolida o projeto petista no estado, fortalecendo alianças e ampliando presença institucional.
2014: Transição planejada
Wagner deixa o governo e articula a eleição de Rui Costa, garantindo continuidade administrativa e estabilidade interna.
2018: Manutenção do grupo
Rui é reeleito com ampla margem. O grupo petista mantém controle do Executivo estadual. A engrenagem ainda funciona com precisão.
2022: Novo nome, novo teste
Jerônimo Rodrigues surge como aposta do grupo. Vence a disputa, mas o cenário já apresenta maior polarização, especialmente diante da força regional de ACM Neto.
2026: Antecipação e turbulência digital
A antecipação da chapa governista enfrenta rejeição expressiva nas redes. Sarcasmo, críticas e comparações com adversários dominam os comentários. O ambiente virtual se mostra menos amistoso do que em ciclos anteriores. E é nesse ponto que o nome de Wagner volta a circular com mais intensidade.
A política tem memória curta, exceto quando a necessidade aperta. Wagner reúne atributos raros: experiência executiva, trânsito nacional, proximidade com o presidente Lula e histórico de vitórias majoritárias. Em tese, um seguro político.
Mas a dúvida persiste: recorrer a Wagner representa força ou falta de renovação? É liderança natural ou ausência de alternativa? Se o ciclo iniciado em 2006 foi marcado por ruptura e novidade, o momento atual parece exigir reinvenção, não repetição.
Os dados digitais não decretam derrotas, mas sinalizam ruídos claros. A rejeição consistente à antecipação da chapa sugere desconforto em parte do eleitorado mais vocal. Ignorar pode ser estratégia; ajustar pode ser prudência.
A história recente mostra que o PT baiano soube operar transições com disciplina interna. Mas cada ciclo tem sua própria temperatura política.
Será que Wagner é a solução para a permanência do partido no centro do poder estadual? Ou o simples fato de a pergunta existir já revela que o desafio não está apenas nos nomes, mas na narrativa, no timing político e na capacidade do partido de ouvir a própria base digital.

