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PGR foi alertada em novembro sobre vazamento de dados sigilosos para Vorcaro

Polícia Federal identificou que ex-banqueiro recebeu documentos da investigação desde julho após possível invasão a sistemas de órgãos públicos

Por: Redação

11/03/202614h21

Foto: Ana Paula Paiva/Valor

A Procuradoria-Geral da República (PGR) foi informada em novembro de 2025 de que dados sigilosos da investigação contra o ex-banqueiro Daniel Vorcaro estavam sendo acessados ilegalmente e repassados a ele. O alerta ocorreu logo após a apreensão do celular de Vorcaro pela Polícia Federal (PF).

De acordo com investigadores, a análise inicial do aparelho revelou indícios de que documentos internos da apuração vinham sendo vazados desde julho de 2025. A informação foi comunicada à PGR ainda durante os primeiros desdobramentos da operação Compliance Zero, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez.

O ex-banqueiro foi detido em 17 de novembro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar para o exterior. A PF suspeita que ele planejava deixar o país para evitar a investigação, enquanto a defesa sustenta que a viagem tinha como objetivo encontrar investidores interessados na compra do Banco Master.

Mensagens encontradas no celular indicam que, em 24 de julho, Vorcaro recebeu de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, documentos em PDF contendo partes da investigação que tramitava na primeira instância da Justiça Federal.

A perícia também apontou que o ex-banqueiro tinha acesso a informações sobre uma apuração conduzida pelo Banco Central envolvendo o Banco Master.

Segundo investigadores ouvidos pela reportagem, a PGR foi informada de que a PF já conduzia uma apuração paralela sobre possíveis invasões a sistemas institucionais desde julho. A suspeita foi reforçada após a extração dos dados do celular de Vorcaro.

Entre os materiais identificados estão capturas de tela, fotografias e documentos em PDF contendo trechos da investigação em andamento.

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não cabe comentar conteúdos decorrentes de “vazamentos ilegais de material sigiloso”. Os advogados também ressaltaram que os fatos já são alvo de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). “As manifestações sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçariam a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração”, diz o comunicado.

A suspeita de acesso indevido a informações confidenciais foi um dos elementos que embasaram a decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, de decretar novas prisões preventivas na última quarta-feira (4).

De acordo com as investigações, haveria uma estrutura paralela chamada “A Turma”, dedicada à obtenção ilegal de dados sigilosos e à intimidação de críticos. Investigadores concluíram que o grupo teria hackeado credenciais de servidores públicos ligados a órgãos de investigação, conseguindo acessar sistemas internos para acompanhar o andamento das apurações.

Como o inquérito possui nível máximo de sigilo, os responsáveis teriam quebrado barreiras de proteção digital ou explorado vulnerabilidades nos sistemas. Em alguns casos, o perfil invadido sequer teria autorização para acessar as informações obtidas.

Tentativas de invasão a sistemas do Ministério Público Federal e da própria Polícia Federal já haviam levantado suspeitas entre investigadores e motivado pedidos formais de apuração. Ainda segundo a investigação, Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos utilizando credenciais funcionais.

O fato de a PGR já ter sido informada sobre os vazamentos desde novembro enfraquece o argumento do órgão de que houve pouco tempo para analisar o novo pedido de prisão de Vorcaro, apresentado no início de março.

A Procuradoria foi formalmente comunicada em 27 de fevereiro sobre a nova fase da operação. Após 72 horas de análise, solicitou mais prazo para se manifestar e não apresentou posição sobre os pedidos de prisão do ex-banqueiro e de outros três investigados.

No pedido, a PGR argumentou que os autos tratavam de “fatos de alta complexidade” e envolviam medidas com forte impacto sobre direitos fundamentais dos investigados. O ministro André Mendonça negou o prazo adicional e determinou as prisões e buscas e apreensões, afirmando que as medidas eram urgentes.

Na decisão, o magistrado afirmou lamentar o pedido da Procuradoria. “Lamenta-se porque as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da Polícia Federal e no curso desta decisão”, escreveu. O relator também destacou que havia indícios de acesso indevido a sistemas sigilosos da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais, como a Interpol.

Segundo Mendonça, existe risco concreto de destruição de provas, já que os investigados teriam demonstrado capacidade de acessar documentos sensíveis e sistemas estatais.