Nova lente de contato inteligente detecta estresse por meio das lágrimas
Por: Redação
25/09/2026 • 19h20
Cientistas dos EUA desenvolveram uma lente de contato capaz de analisar alterações nas lágrimas para identificar níveis de estresse. A tecnologia, que utiliza um sensor para medir a serotonina, pode revolucionar o monitoramento da saúde mental.
Pesquisadores do Instituto Terasaki de Inovação Biomédica, situado nos Estados Unidos, criaram uma lente de contato inteligente, flexível e reutilizável que analisa lágrimas para identificar alterações fisiológicas ligadas ao estresse. A inovação incorpora um sensor capaz de detectar a serotonina, uma substância que desempenha um papel crucial na resposta do corpo ao estresse.
A proposta visa transformar a lente em um laboratório miniaturizado que recolhe informações bioquímicas diretamente do filme lacrimal, eliminando a necessidade de agulhas ou coletas tradicionais de sangue. Segundo Minwoo Kim, principal autor do estudo, as lágrimas contêm informações valiosas sobre o corpo humano.
A tecnologia se baseia na constatação de que o estresse causa diversas alterações físicas e mentais, muitas vezes difíceis de monitorar de forma objetiva. Embora a serotonina seja frequentemente associada ao humor, ela também atua como um sinalizador em vários processos fisiológicos e está presente nas lágrimas.
Funcionamento da Tecnologia
Os pesquisadores integraram um sensor fino e flexível a uma lente de contato gelatinosa convencional. Este sistema é projetado para identificar a serotonina no líquido lacrimal e converter essa informação em um sinal elétrico, que depois pode ser medido. O sensor utiliza ferroceno, um composto que reage com a serotonina, gerando uma resposta elétrica. O estudo, publicado na revista *Science Translational Medicine*, mostrou que o dispositivo consegue detectar concentrações de serotonina de até 72 picomolares, com sensibilidade 200 vezes superior ao necessário para identificar níveis normais dessa substância nas lágrimas humanas.
Experimentos realizados em camundongos expostos a estresse crônico revelaram que os níveis de serotonina nas lágrimas diminuíram, enquanto o cortisol, hormônio relacionado ao estresse, aumentou no sangue e nas lágrimas. Em uma fase inicial com humanos, amostras de lágrimas de dez voluntários foram coletadas durante um teste de estresse, mostrando que a concentração de serotonina caiu durante a atividade estressante, retornando aos níveis normais após o teste.
Reutilização e Futuras Aplicações
O estudo também avaliou a possibilidade de reutilização da lente, que manteve a precisão das medições por até 400 utilizações em vários dias. Yangzhi Zhu, pesquisador principal do Instituto Terasaki, comentou que o olho pode servir como um acesso a informações tanto da região ocular quanto de processos em outras partes do corpo. O objetivo é desenvolver dispositivos oculares flexíveis que transformem lágrimas em uma fonte contínua de informações bioquímicas.
A serotonina foi escolhida como prova de conceito, mas há planos para expandir a tecnologia visando monitorar diferentes biomarcadores e sinais fisiológicos.
Próximos Passos
Os cientistas pretendem evoluir o protótipo atualmente conectado a equipamentos de laboratório para um dispositivo vestível totalmente integrado, incluindo componentes sem fio para realizar medições e transmitir dados em tempo real. Antes da aplicação clínica, novos testes com grupos maiores e diversificados de voluntários são necessários para entender melhor a relação entre os níveis de serotonina nas lágrimas, o estresse e a saúde mental. Também será necessário investigar a estabilidade do sensor ao longo do tempo, o conforto do usuário e a segurança do uso contínuo, além da viabilidade de produção em larga escala.
Esse trabalho representa um avanço inicial na área de bioeletrônica ocular, que combina sensores bioquímicos, eletrônica flexível e tecnologias vestíveis para obter informações a partir da superfície dos olhos. A visão de longo prazo, segundo Zhu, é não restringir a tecnologia à medição de uma única substância, mas sim usar as lágrimas como uma plataforma para monitorar continuamente diferentes aspectos da fisiologia do corpo de maneira pouco invasiva.
Fonte: Bahia Notícias

